Reflexões sobre a morte de Cau

Ainda muito recente, a trágica morte do reitor da Ufsc Luís Carlos Cancellier certamente é um fato que precisará de tempo para ser compreendido, como a maior parte dos fatos de grande relevância histórica, que passam à posteridade com uma percepção diversa daquela notada no calor do momento. Por razões culturais variadas, o suicídio é um tabu social. Neste caso, inegavelmente foi usado como instrumento político, até pelas circunstâncias em que se deu: num momento de tensão extrema, em local de grande circulação e com um manifesto escrito. Cau Cancellier era tido como um cidadão de diálogo e se revelou, em várias entrevistas, abismado com a truculência com que foi tratado desde que a Polícia Federal deflagrou a operação Ouvidos Moucos. Esse debate se impõe: até que ponto as ações de combate a delitos podem estar relegando a um segundo plano a dignidade de pessoas que, quando muito, são meramente acusadas de alguma coisa. Os supostos desvios de dinheiro público destinados a custear cursos de formação não se deram na gestão de Cau e contra ele pesava a acusação de não dar continuidade às investigações. É algo que deve ser apurado, mas o espetáculo da prisão também precisa ser alvo de reflexão. Até que ponto vale a pena constranger publicamente uma pessoa em nome de uma investigação supostamente mais eficiente? Será que Polícia, Ministério Público e o Judiciário estão investidos de poder demais?

Depoimento de Lédio

Lédio Rosa de Andrade, no funeral de Cau, relembrou a infância na rua Santos Dumont, em Tubarão, e bateu duro na instituição que representa. Disse estar orgulhoso como professor, mas envergonhado como desembargador. Citou bandidos de toga e disse que os ditadores estão sempre à espera de retornar. Por fim, lembrou que Hitler e Mussolini não foram impedidos pela sociedade e clamou para que não voltemos a precisar trocar as flores por armas para derrubar novas ditaduras. Palavras fortes que podem ser conferidas no vídeo.

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