A luta de uma geração contra a mordaça

Estamos vivendo a luta de uma geração contra a mordaça. A derrubada da ditadura que torturou, matou e roubou o povo brasileiro representou a conquista da liberdade de expressão. A derrubada dos governos antidemocráticos trouxe mais que o fim de crimes contra os cidadãos. Também permitiu que todos pudessem se expressar. Denunciando, portanto, o próprio governo.

Regimes ditatoriais favorecem a corrupção e no Brasil não foi diferente. As mordaças da censura, da tortura e dos assassinatos impediram que muitos dos grandes escândalos e desvios fossem minimamente investigados. Havia roubalheira, porém não se falava sobre isso. O historiador Pedro Campos fez um interessantíssimo levantamento sobre as evidências de que a corrupção na ditadura era muito maior do que nos dias atuais.

Ela inegavelmente estava lá. Entretanto, era varrida para baixo dos porões.

Algumas gerações se envolveram na busca por um país mais livre. A conquista veio e certamente se imaginou que ela estava consolidada. No entanto, a cada dia vemos o risco de retrocesso bater à nossa porta.

A luta de uma geração contra a mordaça

Os sinais são inequívocos. O totalitarismo é uma arma de quem quer roubar sem ser investigado. A mordaça chega de mansinho, primeiramente sob o pretexto de endurecer as regras contra a corrupção. Posteriormente, em nome da ordem, fica proibido discordar. Já vimos esse ciclo se iniciar antes que chegasse ao poder um governo notoriamente contrário aos conceitos iniciais de democracia.

O que era o projeto Escola Sem Partido, disseminado por todo o país? Uma tentativa de amordaçar os professores dentro da sala de aula, impedindo reflexões plurais. Tivemos esse debate em Tubarão, assim como em várias outras cidades.

Coincidência ou não, hoje somos governados pelo PSL. No âmbito federal e no âmbito estadual. E tanto o presidente da República quanto o governador deixaram claro seu pouco apreço à liberdade de imprensa.

Naturalmente essa liberdade deve ser exercida com a possibilidade de críticas aos veículos de comunicação. São empresas com seus interesses comerciais, administradas por pessoas com visões políticas distintas. Nenhum veículo ou mesmo nenhum jornalista pode estar a salvo de ser criticado ou rebatido.

Mas ninguém deve, no exercício de seus direitos, ser calado à força.

Jair Bolsonaro mandou repórteres calarem a boca. Tentou restringir, por medida provisória, o acesso à informação transparente. Defendeu torturadores. Tem ligação estreita com milicianos. Dele pouco se poderia esperar mesmo.

Moisés vira um minibolsonaro

Carlos Moisés decepcionou um grande número de pessoas, apesar de muitos acreditarem nas suas intenções. Revelou-se o que ele garantia não ser: um minibolsonaro. Diante de um assustador escândalo de corrupção envolvendo a compra de respiradores, sugeriu rever o conceito de liberdade de imprensa. Pediu ajuda a empresários que anunciam nos veículos, para que estes pratiquem um “jornalismo decente”. Uma lamentável pressão econômica que só não se concretizou porque Moisés não dispõe hoje de condições de liderar movimentos.

Quem definiria o que é jornalismo decente? O próprio governador? Seria indecente tornar públicas as informações sobre o escândalo que se instalou no governo?

No vídeo, Moisés praticamente determina que só existirá erro quando ele próprio entender que existe. Totalitarismo na essência. Chega a dizer que a mídia “fez tudo errado”. Será que é democrático esperar que o governador nos diga como se faz tudo certo?

Bertolt Brecht nos alertava que a cadela do fascismo está sempre no cio. Quem não viveu a ditadura provavelmente achou que não precisaria lutar por liberdade. Achou errado. E o duelo, portanto, está apenas começando.

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